Michael Hampton passou mais de cinco décadas ajudando a construir a linguagem do Parliament-Funkadelic. Para o guitarrista, porém, o segredo de uma boa guitarra funk pode estar em algo menos chamativo do que equipamentos ou virtuosismo: a maneira de se encaixar no ritmo.
A síncope é um dos pilares de sua abordagem. Hampton aprendeu a valorizar a interação entre diferentes padrões rítmicos ainda na igreja pentecostal que frequentava. A experiência acabou influenciando sua maneira de tocar.
O músico também falou sobre a rotina de improvisações que marcou o processo criativo do P-Funk, sua incomum BC Rich Bich de 10 cordas e alguns dos riffs mais estilosos que já ouviu.
Em entrevista à Guitar.com, Hampton relembrou sua trajetória com o grupo e explicou como diferentes referências musicais ajudaram a formar a sonoridade do Parliament-Funkadelic.
Da igreja para o groove do P-Funk
Hampton entrou para o grupo aos 17 anos, depois de impressionar George Clinton com uma interpretação de “Maggot Brain”, clássico instrumental do Funkadelic lançado em 1971.
A partir daí, tornou-se uma presença importante na construção da sonoridade da banda. O trabalho combinava funk, rock, blues, jazz e outras referências em uma mistura que se tornou característica do P-Funk.
Hampton acredita que essa variedade fazia parte da própria visão de Clinton.
“Você ouvirá um pouco de country e western, um pouco de slide, um pouco de funk, um pouco de jazz e até um pouco de música clássica”, explica.
Um dos registros dessa abordagem aparece em One Nation Under a Groove, álbum de 1978. Hampton também participou da composição de “Who Says a Funk Band Can’t Play Rock?”.
Segundo o guitarrista, a faixa começou com mudanças escritas pelo tecladista Walter “Junie” Morrison. Hampton gravou suas partes sobre a estrutura existente e também dobrou linhas executadas pelo baixo.
O solo chamou a atenção dos integrantes, que decidiram incluí-lo entre os créditos de composição.
O segredo está na síncope
Quando o assunto é tocar funk, Hampton aponta um elemento fundamental: a síncope.
“Na guitarra funk, você está tentando tocar algo em sintonia com a bateria ou com outro músico”, explica.
Para ele, a questão está em fazer a guitarra se encaixar perfeitamente nos diferentes ritmos executados pela banda.
Essa percepção começou a ser desenvolvida ainda na igreja pentecostal que frequentava. Hampton lembra das palmas e da sobreposição de diferentes ritmos durante os cultos.
“Você começa com um ritmo simples e então alguém entra com outro ritmo que se baseia nesse”, conta.
A experiência ajudou a formar sua compreensão sobre groove e sobre a relação entre guitarra, bateria e os demais instrumentos.
Uma BC Rich de 10 cordas
O equipamento de Hampton também foge do convencional. Entre seus instrumentos está uma BC Rich Bich de 10 cordas, cuja configuração inclui quatro cordas duplicadas.
As cordas E, B, G e D são duplicadas, enquanto o instrumento possui ainda outras características que contribuem para sua sonoridade. Hampton destaca a construção com braço inteiriço e afirma que ela proporciona bastante ressonância.
A guitarra também conta com dois pré-amplificadores e chaves para colocar os captadores em fase ou fora de fase.
Outro detalhe importante é a afinação. Hampton utiliza intervalos de quartas e quintas, obtendo uma sonoridade que considera semelhante a um efeito de harmonização, mas sem recorrer a um pedal.
Já a amplificação sempre dependeu da estrutura disponível nos palcos. Hampton passou por configurações com Marshalls e, posteriormente, por grandes conjuntos de amplificadores Music Man e amplificadores de potência Crown.
Jams de madrugada
A improvisação também ocupava um papel central no processo criativo do Parliament-Funkadelic.
Hampton conta que a banda fazia longas sessões no United Sound Systems, em Detroit. O estúdio ficava em frente ao hotel onde os músicos estavam hospedados, o que permitia uma rotina de ensaios e gravações praticamente contínua.
“Parecia que era sempre uma grande jam session”, relembra.
A banda poderia partir de uma gravação vocal, uma letra, uma melodia ou simplesmente de uma ideia instrumental. Depois, os integrantes decidiam quais elementos seriam aproveitados.
As sessões podiam acontecer durante o dia ou atravessar a madrugada. Todos permaneciam de prontidão para trabalhar quando surgisse uma nova ideia.
O riff mais funk que Hampton já ouviu
A influência do Parliament-Funkadelic atravessou gerações e chegou a artistas como Prince e Red Hot Chili Peppers.
Para Hampton, entretanto, o funk pode nascer de uma ideia extremamente simples. Ao falar sobre os riffs mais estilosos que já ouviu, ele cita “Super Bad”, de James Brown.
O guitarrista destaca que a música utiliza apenas uma nota em determinado trecho, mas consegue produzir uma sensação extremamente marcante.
A observação resume uma característica importante de sua própria abordagem. No funk, a força da guitarra não depende necessariamente da quantidade de notas, mas de saber onde colocar cada uma delas dentro do groove.






