o fim dos anos 1980, Gary Moore ainda orbitava o universo do hard rock que havia marcado grande parte de sua carreira. Mas, longe dos palcos e das manchetes, uma mudança silenciosa começava a acontecer. E ela teria início com um conselho aparentemente simples dado por Bob Daisley.
Em entrevista resgatada pela imprensa internacional, Moore relembrou que costumava tocar blues sozinho nos camarins entre shows. Era nesses momentos que Daisley insistia na mesma ideia: o guitarrista deveria gravar um álbum inteiramente voltado ao blues.
“Você deveria fazer um disco de blues. Provavelmente seria a maior coisa que você já fez”, teria dito o baixista.
Segundo Moore, os dois chegaram a rir da sugestão na época. Mas, anos depois, o guitarrista admitiria que Daisley estava absolutamente certo.
O Gênesis de Still Got the Blues
A ideia não foi colocada em prática imediatamente. Naquele período, Moore ainda estava profundamente ligado ao circuito hard rock e metal, embora já demonstrasse certo desgaste com aquela cena.

Em entrevistas posteriores, o guitarrista explicou que sentia necessidade de se afastar do universo do metal para explorar algo mais espontâneo e emocional. Ainda assim, existia uma preocupação: a gravadora aceitaria um disco de blues vindo de um músico conhecido por solos explosivos e álbuns pesados?
A surpresa veio quando a própria Virgin Records apoiou a mudança de direção.
Lançado em 1990, Still Got the Blues acabou se tornando um dos trabalhos mais importantes da carreira de Gary Moore. O álbum apresentou uma abordagem que misturava blues tradicional, produção moderna e a intensidade melódica característica do guitarrista.
O disco ainda reuniu participações de nomes históricos como Albert King, Albert Collins, Don Airey e George Harrison.
Uma gravação marcada pela espontaneidade
Gary Moore também revelou que parte do impacto emocional do álbum veio justamente da forma descontraída como várias músicas foram registradas em estúdio.
Faixas como “Still Got the Blues” e “Oh Pretty Woman” teriam surgido durante sessões quase improvisadas, enquanto os músicos ainda experimentavam timbres e ajustavam o ambiente de gravação.
O próprio Moore afirmou que gravou “Still Got the Blues” praticamente em uma única tomada.
Para ele, alguns dos melhores momentos acontecem justamente quando o músico deixa de pensar excessivamente e apenas toca.
O disco que redefiniu a identidade de Gary Moore
O sucesso do álbum ultrapassou expectativas. O que inicialmente parecia uma mudança arriscada acabou se transformando em uma reinvenção artística completa.
A turnê, originalmente planejada para poucas semanas, se estendeu por meses. Mais importante ainda: Still Got the Blues consolidou Gary Moore como um dos grandes nomes do blues moderno, sem apagar sua herança hard rock.
Décadas depois, o álbum segue sendo considerado um dos exemplos mais emblemáticos de transição artística bem-sucedida dentro da guitarra elétrica.
E, curiosamente, tudo começou com uma frase casual dita em um camarim. O resto… bem, já é história!





