Eu erro, tu erras, ele erra. A conjugação é democrática. A única forma de nunca falhar no play seria não ser guitarrista. Nem mesmo nomes como Steve Vai passaram ilesos por deslizes ao vivo.
A questão, no entanto, não é o erro em si, mas o que o músico faz com ele. Durante participação no Guitar Talks, Murillo Xavier abriu o jogo sobre como a auto-sabotagem e a síndrome do impostor quase o afastaram dos palcos.
Durante a conversa com Guilherme Montanari, Murillo afirmou que lidou por anos com dúvidas profundas sobre a própria capacidade, mesmo após dedicar a vida inteira ao instrumento. A pressão, somada à ansiedade, chegou ao ponto de afetar sua saúde emocional e sua relação com a música. Essa reflexão profunda está a partir de 1h20, aproximandamente, no vídeo abaixo:
Segundo o guitarrista, houve momentos em que pensou em desistir de tocar. Não por falta de amor pelo instrumento, mas por não conseguir aproveitar a própria arte.
Subir no palco já esperando o erro
Murillo contou que passou por fases em que subia ao palco já convencido de que falharia. Antes mesmo da primeira nota, o pensamento era de frustração antecipada.
Quando um erro acontecia, ele permanecia preso àquela falha durante todo o restante do show. Mesmo recebendo elogios do público após a apresentação, internamente desqualificava qualquer reconhecimento.
O músico revelou que desacreditava dos comentários positivos e se punia mentalmente. Para ele, a sensação constante era de não merecer estar ali.
O peso da realidade do músico independente
Murillo também destacou a pressão extra enfrentada por quem trabalha com música autoral e instrumental. Cada apresentação é rara e preciosa. Justamente por saber o quanto é difícil conquistar espaço, a cobrança interna se tornava ainda maior. O palco deixava de ser celebração e virava campo de prova.
Ele descreveu esse período como caótico. Questionar a própria identidade depois de anos dedicados à música foi, segundo Murillo, uma das experiências mais difíceis da sua trajetória.
A virada: transformar tensão em diversão
A mudança começou quando ele passou a repetir uma máxima simples para si e para outros músicos: “se divirta”.
Murillo afirmou que viver de música é desafiador, com instabilidade financeira e falta de apoio. Ainda assim, lembrou que a essência da profissão é o prazer de tocar. Ao priorizar a diversão como ponto de partida, ele conseguiu reduzir o peso da auto-sabotagem e reconstruir sua relação com o palco.
Eu erro, tu erras, ele erra. A diferença está em continuar tocando depois disso.





