O músico sérvio Alek Darson acredita que a dificuldade de tocar um instrumento sem trastes é justamente parte de seu atrativo. Guitarrista, compositor e produtor de rock progressivo, ele desenvolve trabalhos autorais e integra o projeto instrumental Inner Child, ao lado do guitarrista Carlos Borges e do baterista Matt Garstka, conhecido por seu trabalho no Animals as Leaders.
Em entrevista à Ultimate Guitar, Darson compartilhou dicas para músicos interessados em explorar a guitarra sem trastes, abordando desafios como afinação, vibrato, formação de acordes e sustentação das notas.
Sua relação com o instrumento começou de maneira improvisada. Darson retirou os trastes de uma antiga Ovation usando uma chave de fenda e um alicate, preenchendo os espaços vazios com massa para madeira. Anos depois, um luthier reconstruiu o instrumento, que passou a ser conhecido como Dark Puff.
Afinação e vibrato exigem outra abordagem
Para Darson, o principal desafio é desenvolver a percepção auditiva necessária para encontrar as notas. Sem os trastes metálicos como referências físicas, pequenas diferenças no posicionamento dos dedos alteram a afinação.
O músico recomenda priorizar o ouvido durante a execução. Ele reconhece que tocar afinado é difícil e afirma que ainda erra a afinação com frequência.
O vibrato também exige uma adaptação. Em uma guitarra convencional, o guitarrista geralmente movimenta a corda lateralmente para variar a altura da nota. No instrumento sem trastes, o movimento acontece principalmente ao longo da corda, permitindo controlar a afinação de outra maneira.
Darson descreve essa técnica como um movimento mais horizontal do que vertical. Para ele, trata-se de uma habilidade que precisa ser desenvolvida especificamente para o instrumento.
Acordes e sustain são outros obstáculos
A ausência dos trastes dificulta a execução de acordes convencionais, sobretudo quando várias notas precisam soar afinadas simultaneamente. Por isso, Darson prefere trabalhar com notas individuais e combinações de duas cordas, recorrendo a formações mais complexas com menor frequência.
O sustain é outro ponto de atenção. Para prolongar as notas, o guitarrista destaca a importância de uma escala muito bem polida e de cordas mais espessas, desde que sejam adequadas às mãos do músico e à construção do instrumento.
Em sua Dark Puff, ele também utiliza um antigo captador de sustain da Fernandes, capaz de manter as cordas vibrando por meio de estímulo eletromagnético. O recurso amplia as possibilidades de sustentação e de exploração de harmônicos.
A regulagem precisa ser igualmente cuidadosa. Darson afirma que elevar demais a ação das cordas não resolve os problemas de execução e ressalta a importância de um braço reto e de uma altura uniforme ao longo da escala.
Dificuldade também é parte do atrativo
Apesar dos obstáculos, Darson vê na guitarra fretless uma oportunidade para explorar territórios sonoros menos convencionais. A combinação do instrumento com efeitos permite criar timbres que se afastam das possibilidades mais familiares da guitarra elétrica.
O guitarrista também cita Ron Thal, conhecido como Bumblefoot, como exemplo de músico que explora possibilidades incomuns, combinando uma guitarra sem trastes com técnicas pouco convencionais.
Darson já trabalha em um novo instrumento de oito cordas, com escala multiescala e sem trastes ou marcadores. O projeto representa mais um passo em sua busca por novas possibilidades expressivas.
“É isso que me fascina nesse instrumento”, resume o músico ao explicar por que continua investindo em uma abordagem que exige tanto do guitarrista.





