Falar em D’Angelico costuma evocar uma imagem bem específica: corpos grandes, efes elegantes, acabamento sofisticado e o universo do jazz nova-iorquino. Essa imagem está correta, mas conta apenas parte da história. O catálogo atual reúne guitarras semiacústicas, archtops e modelos de corpo sólido.
Modelos como Premier Brighton e Premier Bedford são exemplos dessa expansão. Ambas deixam de lado o corpo tradicional das archtops para explorar outras linguagens da guitarra elétrica.
A Brighton aposta em um formato double-cutaway. Já a Bedford segue pelo caminho offset, com uma aparência ainda mais distante das referências clássicas.
Se a associação da D’Angelico com o jazz continua fazendo sentido, ela já não explica toda a marca. A pergunta, então, muda: como uma fabricante conhecida pelas archtops passou a ocupar espaços tão diferentes na guitarra elétrica?
Uma história construída em Nova York
A resposta começa em 1932, na Kenmare Street, em Little Italy, Manhattan. Foi ali que o luthier John D’Angelico abriu sua oficina e começou a construir guitarras archtop em escala essencialmente artesanal.
Esses instrumentos estavam ligados às necessidades dos músicos de jazz e das grandes orquestras da época. Era preciso oferecer projeção e volume suficientes para atravessar conjuntos maiores antes da popularização da amplificação.
D’Angelico desenvolveu seus próprios desenhos e construiu pouco mais de 1.100 instrumentos durante seus 32 anos de carreira. O trabalho minucioso transformou seu nome em referência entre guitarristas e colecionadores. Após sua morte, em 1964, o aprendiz James D’Aquisto continuou desenvolvendo a construção archtop sob seu próprio nome.
A marca D’Angelico atravessaria décadas de interrupção e diferentes reedições antes de voltar ao mercado. A retomada ganhou força no século XXI, quando a fabricante passou a desenvolver instrumentos em uma escala muito maior.
A proposta deixou de ser simplesmente reproduzir os instrumentos históricos. O catálogo começou a incorporar novas construções, formatos e configurações, mantendo algumas referências visuais associadas ao nome D’Angelico.
O que torna uma D’Angelico reconhecível?
Mesmo com formatos diferentes, muitos instrumentos da marca compartilham elementos que tornam sua procedência imediatamente perceptível.
O primeiro deles é o headstock, cuja linguagem visual remete ao Art Déco que marcou a Nova York dos anos 1930. O desenho aparece acompanhado por incrustações, elementos escalonados e detalhes inspirados na arquitetura da cidade.
O desenho escalonado, conhecido como stairstep, reaparece em diferentes detalhes de construção e acabamento da marca. Bindings, incrustações e outros detalhes de acabamento também ajudam a conectar instrumentos de propostas bastante diferentes.
Há ainda uma referência particularmente interessante: o desenho das efes, herdado das guitarras de corpo oco, aparece em elementos visuais de alguns modelos sólidos.
Esses detalhes funcionam como uma assinatura visual, mesmo quando o instrumento já não tem a aparência de uma archtop tradicional.
É uma maneira de transportar referências históricas para construções que pertencem claramente ao universo da guitarra elétrica moderna.
Quando a D’Angelico entrou no território dos corpos sólidos
A expansão para os modelos de corpo sólido é onde essa transformação fica mais evidente. Em 2018, a D’Angelico apresentou uma coleção de três solid bodies formada por Bedford, Ludlow e Atlantic.
A Bedford foi o primeiro projeto desenvolvido para esse trio, marcando uma mudança importante no catálogo da fabricante. O modelo adota um corpo offset e configurações de captadores voltadas para uma abordagem diferente das archtops. A versão da linha Premier — a série de entrada padrão da marca — traz dois captadores P-90, ponte Tune-O-Matic e tremolo de seis pontos.
A Premier Brighton segue outra direção, com corpo double-cutaway e dois humbuckers. O modelo também oferece coil-split, permitindo explorar diferentes respostas dos captadores. Essas guitarras conversam naturalmente com rock, indie, blues, funk e outras linguagens que dependem de ganho, efeitos e maior variedade de timbres.
Ainda assim, elementos como o headstock e os detalhes escalonados permanecem presentes. O resultado é uma família de instrumentos que pode mudar bastante de formato sem perder o reconhecimento imediato da marca.
Mini DC leva a tradição semiacústica para outro tamanho
Se Brighton e Bedford representam a expansão para o corpo sólido, a Mini DC mostra outro caminho. E aqui existe uma distinção importante: a Mini DC é uma guitarra semiacústica, ou semi-hollow.
O modelo mantém um bloco central e o formato double-cutaway, mas reduz as dimensões do corpo para 14 polegadas.
Essa construção preserva características importantes das semiacústicas, enquanto oferece uma experiência mais compacta ao guitarrista. A escala de 24,75 polegadas também aproxima o instrumento de uma experiência familiar para muitos músicos de guitarra elétrica.
Na versão Premier atual, a Mini DC combina essa construção com dois humbuckers e ponte Tune-O-Matic.
A Mini DC Deluxe leva a mesma proposta para uma categoria superior, com componentes e acabamentos mais sofisticados. Entre os recursos associados à versão Deluxe estão captadores Seymour Duncan, tarraxas Grover locking e ferragens diferenciadas.
A comparação entre as duas versões não precisa funcionar como uma lista de especificações. Ela mostra como a D’Angelico trabalha uma mesma arquitetura em diferentes níveis de acabamento e configuração.
A Mini DC, portanto, não representa uma ruptura com as semiacústicas. Ela mostra como esse formato pode ganhar novas proporções e continuar relevante para quem procura praticidade sem abandonar suas características fundamentais.
De Tomo Fujita a Mac DeMarco, quem escolhe D’Angelico?
A diversidade dos instrumentos também aparece nos músicos associados à fabricante. O roster oficial da D’Angelico reúne artistas de diferentes gerações, estilos e contextos profissionais.
Entre eles estão Tomo Fujita, Jack Johnson, Melissa Etheridge, Nels Cline e Mac DeMarco.
Tomo Fujita representa uma relação direta com técnica, improvisação, funk, R&B e jazz. Mac DeMarco está em outro ponto dessa paisagem, associado ao indie e a uma estética sonora bastante particular.
Por sua vez, Nels Cline transita entre o rock do Wilco, improvisação e experimentação. Jack Johnson leva a guitarra para uma abordagem mais acústica e ligada ao folk e ao surf. Melissa Etheridge acrescenta outra dimensão, associada ao rock e à performance vocal e instrumental.
A lista poderia continuar, mas esses nomes já revelam a dimensão dos diferentes espaços ocupados pela marca. Não existe um único perfil de guitarrista associado aos instrumentos.
Há músicos interessados em jazz, blues, rock, indie, funk, folk e experimentação. Essa variedade ajuda a entender por que o catálogo atual não cabe mais na imagem de uma fabricante exclusivamente ligada ao jazz.
A chegada da D’Angelico no Brasil
É dentro desse cenário que começa um novo capítulo para a D’Angelico no mercado brasileiro. A marca passa a ser trabalhada no país pela Novità Music, que iniciou recentemente a operação local.
O momento é diferente daquele vivido por fabricantes que já possuem décadas de presença consolidada entre os guitarristas brasileiros. A D’Angelico ainda está construindo esse espaço.
Por isso, apresentar a marca significa também mostrar ao público brasileiro que existe uma fabricante além da imagem associada às guitarras archtops e ao jazz.
O catálogo de guitarras disponível no país reúne modelos das linhas Premier, Excel e Deluxe, com diferentes propostas dentro da fabricante. Entre eles estão opções semiacústicas, como a Mini DC, e modelos de corpo sólido, como Brighton e Bedford.
Os violões também fazem parte da chegada da D’Angelico ao Brasil
A oferta, porém, vai além das guitarras elétricas. O portfólio da D’Angelico também inclui violões das linhas Premier e Excel, com diferentes propostas de construção e acabamento.
Na linha Premier, modelos como o Bowery LS e o Lexington LS mostram a variedade de opções oferecidas pela fabricante. Ambos utilizam construção laminada em mahogany e contam com eletrônica D’Angelico MG-30.
O Bowery LS adota o formato dreadnought e combina acabamento Aged Mahogany com uma proposta de timbre quente, médios definidos e boa projeção. O Lexington LS segue a mesma proposta de corpo dreadnought, com construção em mahogany laminado, braço em mahogany e escala em torrefied merbau.
Entre os destaques está o Excel Bowery All Solid, modelo eletroacústico construído inteiramente em madeira maciça e apresentado no acabamento Vintage Natural. Outro exemplo é o Excel Tammany All Solid, também construído com madeiras maciças e voltado a uma proposta acústica dentro da linha Excel.
As duas séries mostram que a relação da D’Angelico com instrumentos acústicos não termina nas guitarras semiacústicas. A fabricante também desenvolve violões que carregam elementos de construção e acabamento presentes em seu catálogo.
Com guitarras elétricas, semiacústicas, solidbodies e violões, a linha disponibilizada no Brasil apresenta uma amostra ampla do catálogo contemporâneo da D’Angelico.
Os instrumentos podem ser encontrados na Planet Music Express e em lojistas premium criteriosamente selecionados pela operação da marca no país.
A chegada ao Brasil, portanto, coloca à disposição do público uma fabricante cuja história começou em Nova York, nos anos 1930, e que hoje trabalha com diferentes formatos dentro do universo dos instrumentos de cordas.
Uma marca que ampliou seu território
A imagem da D’Angelico como fabricante ligada às guitarras archtops de jazz continua fazendo sentido. Ela só deixou de ser suficiente para explicar o catálogo atual.
A história iniciada por John D’Angelico em Nova York aparece nos detalhes dos instrumentos, especialmente no desenho do headstock e em referências ao universo das archtops.
Ao mesmo tempo, Brighton e Bedford mostram a fabricante trabalhando com corpos sólidos e configurações direcionadas a outros estilos.
A Mini DC segue uma terceira via, mantendo a construção semiacústica em um formato menor e mais contemporâneo. É justamente essa variedade que torna o catálogo atual mais interessante do que a primeira impressão sugere.
Para quem conhece a D’Angelico pelo jazz, existe bastante coisa nova para descobrir.
