Todo músico tem aquela guitarra que carrega uma história maior do que as notas que ela já produziu. Para Joe Perry, essa guitarra tem nome: “Burned Strat”. Montada com peças avulsas, queimada com maçarico depois de passar uma noite no freezer e cheia de modificações acumuladas ao longo de décadas, ela é o instrumento que o guitarrista do Aerosmith chama, sem hesitar, de sua “desert island guitar” — aquela que ele levaria para uma ilha se pudesse ficar com apenas uma.
A origem do instrumento está ligada a um dos momentos mais turbulentos da carreira de Perry. Quando ele deixou o Aerosmith, no fim dos anos 1970, colocou de lado as guitarras associadas à banda e partiu para uma nova fase.
“A inspiração para montar essa guitarra foi quando deixei a banda, coloquei a maioria das minhas guitarras do Aerosmith de lado e basicamente montei essa guitarra com peças Warmoth”, contou Perry. “Eu estava voltando a tocar em clubes e teatros, apenas cruzando o país numa van com uma banda. De certa forma, essa guitarra se encaixou na minha filosofia de deixar o Aerosmith de lado e tocar essa guitarra que eu havia montado.”
Uma guitarra construída no detalhe
O que torna a Burned Strat tão particular não é apenas sua história, mas o nível de personalização que Perry imprimiu nela ao longo dos anos. O corpo é Fender e o braço é Warmoth — e ambos são canhotos, uma escolha que contribui para a pegada única do instrumento. Perry chegou a entalhar partes do corpo para deixá-lo mais confortável, colocou a guitarra no freezer durante uma noite e, no dia seguinte, aplicou um maçarico para craquelar o acabamento. O resultado é um visual envelhecido e cheio de personalidade.
Temendo perder o instrumento original durante as turnês do Aerosmith, Perry e seu técnico montaram uma segunda versão. “Não queria correr o risco de a guitarra original ser perdida, então por volta de 2001, eu e meu técnico montamos outra com a mesma filosofia — só pedaços e mais pedaços, sabe?”, explicou.
As modificações não pararam. O tremolo foi substituído por uma ponte Vega-Trem, e Perry usou até um Dremel — ferramenta rotativa de precisão — para ajustes finos. Mais recentemente, ele trocou os captadores originais por um par de Seymour Duncan P-Rails, que combinam um captador P-90 e um single-coil estilo Stratocaster em um único slot de humbucker. Com microswitches adicionados ao circuito, é possível usar cada captador separadamente ou em conjunto. “Consigo fazer praticamente qualquer coisa nessa guitarra”, afirmou Perry.
A Burned Strat esteve presente em momentos recentes da carreira do guitarrista, incluindo uma apresentação no MTV Video Music Awards ao lado de Steven Tyler e Yungblud, e nas gravações do EP One More Time, lançamento mais recente do Aerosmith. “Tudo que você ouve eu fiz com essa guitarra e apenas alguns pedais de efeito”, destacou
Mesmo com a artrite começando a se fazer presente, Perry diz que o setup do instrumento — com cordas híbridas e trastes mais largos que facilitam as bendings — segue sendo o mais confortável que já teve. “Neste momento, ela é e continuará sendo minha ‘desert island guitar’. Mas você nunca sabe”, disse ele, com bom humor.
As informações são do site Guitar.com.




