O guitarrista Ritchie Blackmore revelou detalhes sobre como desenvolveu o timbre característico que marcou sua trajetória com Deep Purple e Rainbow. Segundo o músico, o som pesado e cortante que definiu sua carreira surgiu de uma combinação pouco convencional de equipamentos e modificações.
Para Blackmore, a história dos amplificadores e guitarras clássicos guarda uma curiosa ironia. “É interessante notar que Jim Marshall não entendia muito de amplificadores. E, mesmo assim, criou algo que fez um sucesso estrondoso. É parecido com Leo Fender, que nunca tocou guitarra”, comentou.
Modificações na Stratocaster
Ao longo da carreira, Blackmore ficou associado às guitarras Fender Stratocaster, instrumento que continua usando até hoje com Blackmore’s Night. Ainda assim, ele nunca considerou o modelo perfeito em sua configuração original.
Uma das alterações favoritas do guitarrista é o chamado scalloped fretboard, em que a madeira entre os trastes é escavada para criar uma superfície côncava.
A ideia surgiu ainda na adolescência, quando Blackmore tocava violão clássico. “Gostava da sensação da madeira côncava. Então comecei a lixar a escala entre os trastes. Leva cerca de três dias de trabalho”, explicou. Para ele, o conceito faz tanto sentido que deveria ser padrão em guitarras elétricas.
Ajustando os amplificadores Marshall
Nos amplificadores, o processo foi parecido. Embora tenha usado equipamentos Marshall durante boa parte da carreira, Blackmore diz que o som original dos modelos não o agradava.
“Eu achava o Marshall normal muito suave e abafado”, afirmou. Para resolver o problema, ele passou a visitar a fábrica da marca em Bletchley e conversar com os engenheiros Ken Flegg e Ken Bran.
A insistência acabou resultando em uma modificação incomum: um estágio de saída extra em um amplificador Marshall Major, originalmente de 200 watts, que passou a entregar cerca de 280 watts.
Segundo o guitarrista, os engenheiros chegaram a pedir que ele não comentasse a alteração publicamente, para evitar pedidos de novos modelos iguais.
O gravador de fita como pré-amplificador
Mesmo com a potência extra, Blackmore ainda buscava mais corpo no som sem aumentar a distorção. A solução veio de forma improvável: um gravador de fita Akai.
O equipamento foi usado como pré-amplificador para reforçar o sinal da guitarra. “Gostei do fato de que ele encorpava o som sem distorcer muito. Era apenas um gravador velho que estava parado em casa”, contou.
O segredo do timbre
Ao explicar como imagina o timbre ideal de guitarra, Blackmore usa uma metáfora incomum: “É como uma coruja encontrando um zangão em pleno voo”.
Na prática, o conceito se traduz em médios fortes, ataque definido e pouca distorção. “Só um pouco de overdrive. Depois desligo quase todos os agudos, deixo um pouco de médios e corto os graves”, explicou.
Chegando na casa dos 81 anos, Blackmore segue ativo e foi recentemente homenageado pelo National Guitar Museum com o Lifetime Achievement Award de 2025, reconhecimento que celebra mais de seis décadas de carreira como um dos guitarristas mais influentes do rock.





