Roberto Barros, ex-guitarrista de Edu Falaschi, revelou no Guitarload Talks que o acidente que quase lhe custou o braço foi o ponto de partida de sua relação com a palhetada alternada. Depois de perder a ponta de um dedo no portão da Expomusic, no início dos anos 2000, ele passou cerca de três anos praticamente sem usar a mão direita. Anos depois do episódio, Roberto ficaria conhecido justamente pela precisão nessa técnica, a ponto de ganhar dos fãs o apelido de Cyborg.
Na época, Roberto já dava aulas e costumava levar alunos à Expomusic, então realizada no Center Norte, em São Paulo. Em uma dessas visitas, o grupo chegou cedo para evitar a multidão e se sentou encostado no portão do pavilhão, que ainda estava fechado.
Roberto não percebeu que as duas mãos estavam apoiadas sobre o trilho do portão. Quando um bombeiro que chegava para trabalhar abriu a entrada, a ponta de um dos dedos da mão direita foi decepada e ficou presa apenas pela pele. Atordoado, ele não conseguia nem identificar qual mão havia sido atingida. A preocupação imediata era saber se voltaria a tocar.
Levado ao hospital, o guitarrista contraiu uma infecção que se espalhou da mão até o cotovelo. Foram três meses de internação, com risco de perder o braço, em uma ala destinada a vítimas de acidentes graves.
“Foi uma época bem difícil para mim”, resumiu.
Mesmo após a alta, o tratamento se estendeu por cerca de três anos. Roberto usou dois pinos no dedo, fez terapia ocupacional e precisou voltar ao hospital várias vezes por causa de novas infecções.
Durante todo esse período, ele tocou praticamente só com a mão esquerda. Nas vezes em que tentava usar a direita, o curativo ou o pino enganchava nas cordas, o dedo começava a sangrar e ele precisava ir ao hospital. O resultado foi uma mão esquerda muito desenvolvida, capaz de executar sozinha as frases que ele conhecia, e uma mão direita sem destreza.
Como nasceu o método de palhetada alternada de Roberto Barros
Quando finalmente voltou a palhetar, Roberto encontrou uma técnica que descreveu como totalmente atrofiada. O principal problema era o sincronismo, ou seja, a coordenação entre a mão que pressiona as cordas e a mão que palheta.
Em vez de apenas repetir exercícios, o guitarrista decidiu tratar o problema de forma sistemática. A partir de 2005, com a internet e as videoaulas se popularizando no Brasil, passou a mapear como os guitarristas que considerava referência na palhetada alternada seguravam a palheta e posicionavam os ombros.
“Se eu conseguir mapear isso, eu vou conseguir encurtar muitos anos do meu estudo”, explicou.
Ao assistir a Paul Gilbert, por exemplo, ele se concentrava na parte motora da execução, observando como o guitarrista se comportava, respirava e posicionava o cotovelo.
O mesmo processo foi repetido com Shawn Lane e com guitarristas de gypsy jazz. Com o tempo, Roberto passou a identificar padrões que se repetiam entre eles. Esse levantamento deu origem ao método que ele ensina hoje em seus cursos e aulas online.
Para Roberto, a guitarra ainda não tem um consenso sobre a técnica, e isso o levou a construir o próprio tratado de palhetada. Ele segue atualizando esse material depois de quase 30 anos de instrumento.
O cuidado com o posicionamento trouxe outro efeito. Roberto afirma que nunca teve lesões nas mãos, mesmo em períodos de estudo de mais de dez horas por dia, e atribui isso à postura que desenvolveu durante essa pesquisa.
“Isso mudou a minha vida na guitarra”, afirmou sobre o acidente.
Segundo ele, o episódio o deixou completamente fascinado pela palhetada alternada e acabou direcionando sua carreira. “No começo a gente não entende. Mas depois a gente entende o porquê”, concluiu.
Assista abaixo à entrevista completa com Roberto Barros no Guitarload Talks.






