Para Steve Stevens, a mudança do hard rock dos anos 1980 para o grunge não significou apenas uma transformação musical. O guitarrista também precisou adaptar sua maneira de tocar para acompanhar as novas demandas da indústria.
Em entrevista ao podcast VPR Rocks, Stevens relembrou uma sessão de gravação realizada nos anos 1990 em que recebeu um pedido inusitado: tocar com menos técnica e reduzir o vibrato.
“Isso é ótimo, Steve. Mas você poderia tocar um pouco menos? E com menos vibrato?”, teria ouvido durante a sessão. Stevens conta que simplesmente riu ao perceber o que o produtor estava pedindo.
Segundo o guitarrista, a orientação fazia referência direta à estética que dominava o rock naquele momento. “Eu sabia exatamente o que eles estavam dizendo, tocar mais no estilo grunge”, explicou.
A mudança veio depois do auge do hair metal
Stevens viveu a transição de perto. Conhecido principalmente pelo trabalho com Billy Idol, o guitarrista também participou do álbum Exposed, primeiro disco solo de Vince Neil, lançado em 1993.
Na avaliação de Stevens, o disco acabou sendo prejudicado pelo momento em que chegou ao mercado. O trabalho surgiu pouco depois da explosão do movimento de Seattle, quando o interesse da indústria e do público havia mudado rapidamente.
Ele também lembrou que algo parecido já havia acontecido durante o surgimento do punk. Na época, músicos que acompanhavam bandas de rock progressivo precisaram lidar com uma mudança radical nos padrões estéticos e musicais.
“Eu vi a grande mudança nos caras que ouviam Emerson, Lake & Palmer de repente terem que cortar o cabelo e gostarem de New Wave”, recordou.
Para Stevens, essas transformações fazem parte do próprio ciclo da música. Ele considera natural que cada geração queira criar uma identidade diferente da anterior.
Menos técnica, mais linguagem
A lembrança da sessão também revela como a estética dominante de uma época pode influenciar até mesmo a maneira como músicos experientes são orientados a tocar.
No caso do grunge, a preferência por performances mais cruas e menos ornamentadas contrastava com a abordagem virtuosa associada a boa parte do hard rock dos anos 1980. Vibratos largos, solos elaborados e grande quantidade de recursos técnicos deram espaço a frases mais econômicas e a uma estética deliberadamente menos polida.
Stevens, porém, não trata essa mudança com ressentimento. Pelo contrário, ele afirma nunca ter tido medo das transformações musicais.
O guitarrista também citou o Soundgarden como uma das bandas que admirou desde o primeiro contato. Para ele, questionar aquilo que já conhece é uma maneira saudável de continuar aprendendo.
“É bom questionar o que você já sabe”, afirmou.
A história da sessão nos anos 1990 acabou se tornando, portanto, um retrato curioso de uma mudança maior: às vezes, um guitarrista precisa demonstrar que consegue tocar menos para provar que entende exatamente o que uma música está pedindo.
Abaixo, você confere a entrevista completa>






