Você já viu uma guitarra com os trastes inclinados e pensou que havia alguma coisa errada com o braço? O desenho pode parecer estranho à primeira vista, mas existe bastante engenharia por trás da chamada multiescale, ou fanned frets.
Na edição de nº 153 da Revista Guitarload, uma das matérias explica de onde veio essa tecnologia, por que ela ganhou espaço entre guitarristas de 7 e 8 cordas e o que muda na prática para quem decide tocar com um instrumento desse tipo.
A ideia central é simples: em vez de todas as cordas utilizarem o mesmo comprimento de escala, a multiescale trabalha com comprimentos diferentes. As cordas graves ficam mais longas, enquanto as agudas permanecem em uma escala menor.
A tecnologia é muito mais antiga do que parece
Embora tenha se tornado especialmente associada ao metal moderno, a ideia de utilizar trastes não paralelos não nasceu com o djent.
Instrumentos de cordas dedilhadas do século XVI, como a bandora e o orpharion, já utilizavam soluções semelhantes para equilibrar a tensão entre as diferentes cordas. No início do século XX, também surgiram registros de patentes relacionados a escalas variáveis.
No Brasil, a própria Del Vecchio apresentou, nos anos 1960, o modelo Twist, que utilizava uma chamada “escala anatômica” com trastes levemente inclinados.
A tecnologia ganhou uma nova dimensão décadas depois, quando o luthier norte-americano Ralph Novak desenvolveu seu sistema Multiple Scale Fretboard. A partir daí, o conceito passou a ser associado comercialmente às guitarras Fanned-Fret.
A popularização veio especialmente com o crescimento das guitarras de 7 e 8 cordas e das afinações graves usadas no metal progressivo.

E tocar uma guitarra dessas é realmente confortável?
Essa é provavelmente a primeira dúvida de quem experimenta uma multiescale.
Os trastes inclinados acompanham, em parte, a posição natural dos dedos e do pulso. O ponto de referência é o chamado traste neutro, geralmente localizado em alguma região intermediária do braço.
A adaptação não é necessariamente longa, mas exige que o músico abandone algumas referências visuais construídas depois de anos tocando guitarras convencionais.
Acordes com pestana e determinados movimentos de palhetada podem exigir pequenos ajustes. Em compensação, a geometria da escala pode oferecer uma posição mais natural para a mão, especialmente em instrumentos de várias cordas.
Afinal, vale a pena investir em uma multiescale?
Não existe uma resposta única. A tecnologia faz mais sentido para quem realmente precisa das vantagens oferecidas por diferentes comprimentos de escala.
Ela pode ser particularmente interessante para guitarristas que utilizam afinações muito baixas, 7 ou 8 cordas, metal progressivo, djent ou outros estilos que dependem de graves definidos.
Para quem toca predominantemente em afinação padrão e já está satisfeito com uma guitarra convencional, a mudança pode não representar uma necessidade.
É justamente essa pergunta que a Guitarload procura responder na edição 153: não apenas como funciona uma guitarra com trastes em leque, mas quando a tecnologia realmente faz diferença para quem está atrás do instrumento.






