O espetáculo ABBA Voyage revolucionou os shows ao combinar tecnologia de captura de movimento com uma banda tocando ao vivo. Mas, por trás dos avatares digitais que recriam o quarteto sueco, existe outro desafio: fazer músicos reais sincronizarem, todas as noites, performances gravadas há mais de quatro décadas.
Em entrevista à Guitar Player, os guitarristas Fernando Sanchez e Christian Mendoza contaram como é tocar no espetáculo, que acontece na ABBA Arena, em Londres, e explicaram por que fidelidade às gravações originais é a principal regra da produção.
Reproduzir os clássicos sem improvisar
Responsáveis por executar todas as partes de guitarra do repertório, Sanchez e Mendoza afirmam que o objetivo nunca foi reinterpretar os sucessos do ABBA.
“Tentamos nos manter o mais fiéis possível às partes originais e aos arranjos que nos foram pedidos”, explicou Fernando Sanchez. Segundo ele, pequenas mudanças podem surgir naturalmente durante a rotina de apresentações, mas a preocupação é sempre retornar à versão gravada.
Christian Mendoza compartilha da mesma filosofia.
“São clássicos atemporais. Nosso propósito é recriar essa música e fazer com que as pessoas revivam a emoção que sentiram quando ouviram essas canções pela primeira vez”, afirmou.
Benny Andersson corrigiu detalhes nos ensaios
Durante a preparação do espetáculo, os músicos receberam partituras e passaram por ensaios supervisionados pelo diretor musical. Em algumas ocasiões, o próprio Benny Andersson, tecladista e compositor do ABBA, participou dos encontros.
Segundo Mendoza, Andersson fez questão de corrigir detalhes específicos de algumas músicas.
Um dos exemplos aconteceu em “Knowing Me, Knowing You”, quando Benny observou que determinada frase deveria seguir exatamente o que havia sido registrado na gravação original, independentemente do que estivesse escrito na partitura.

O maior desafio? Ignorar o metrônomo
Apesar da tecnologia de ponta utilizada no espetáculo, uma das maiores dificuldades surge justamente das gravações originais do ABBA.
Como boa parte das músicas foi registrada antes da popularização do uso de metrônomos em estúdio, diversos trechos apresentam pequenas variações naturais de andamento.
Segundo Sanchez, músicas como “Chiquitita” exigem atenção redobrada.
“Precisamos ouvir a faixa com muito cuidado porque ela se move em relação ao clique. Se não estivermos perfeitamente juntos, tudo soa confuso”, explicou.
Mendoza acrescenta que, em alguns momentos, os músicos precisam simplesmente ignorar o metrônomo para acompanhar o piano original.
Amplificadores valvulados em um show futurista
Embora o espetáculo seja um dos mais tecnológicos da atualidade, os timbres permanecem tradicionais.
Os dois guitarristas utilizam amplificadores Mesa/Boogie California Tweed totalmente valvulados.
Mendoza alterna entre uma Fender Telecaster e uma Fender Stratocaster, enquanto Sanchez utiliza exclusivamente uma Stratocaster durante toda a apresentação.
Segundo Mendoza, a produção também exige que os timbres sejam extremamente próximos dos discos.
“Tento chegar o mais perto possível do som original usando apenas um overdrive leve. Não faz sentido aparecer com um timbre voltado para heavy metal em um show do ABBA”, comentou.
Mais de 3 mil pessoas por noite
Mesmo repetindo o mesmo repertório diversas vezes por semana, os dois afirmam que a experiência continua desafiadora.
Para Sanchez, tocar diante de cerca de 3 mil pessoas por apresentação mantém o entusiasmo sempre elevado. Já Mendoza resume a rotina de forma simples. “Sou um músico de estrada. Um dia tocando sempre será melhor do que um dia sem tocar.”




