As novas tarifas comerciais defendidas pelo governo Donald Trump seguem provocando tensão na indústria musical norte-americana. Agora, o alerta vem diretamente da NAMM, principal associação global do setor de instrumentos musicais.
Durante audiência realizada em Washington, o presidente da entidade, John Mlynczak, afirmou que as tarifas podem gerar um efeito contrário ao discurso de fortalecimento da indústria americana: em vez de estimular a produção local, elas podem afastar iniciantes do universo da música.
Segundo ele, o impacto tende a atingir justamente o segmento responsável por formar futuros consumidores de instrumentos profissionais.
“As tarifas não vão direcionar as compras para instrumentos de nível iniciante fabricados nos EUA. Elas vão excluir os iniciantes do mercado por causa dos preços.”
A declaração foi feita diante do Comitê da Seção 301 do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), durante uma audiência ligada às políticas tarifárias aplicadas sobre produtos importados.
Mercado de entrada pode sofrer os impactos mais severos
De acordo com a NAMM, o setor musical depende de uma cadeia global construída ao longo de décadas. Mesmo fabricantes americanos utilizam peças, componentes e matérias-primas produzidas fora dos Estados Unidos.
Isso significa que as tarifas acabam afetando desde instrumentos básicos até equipamentos premium.
Mlynczak explicou que o problema se torna ainda mais delicado no segmento de entrada, onde pequenos aumentos de preço podem afastar estudantes, iniciantes e famílias do primeiro contato com a música.
Dados apresentados pela associação mostram que, em 2025, as importações de instrumentos de sopro caíram 27%, enquanto os pianos registraram queda de 20%.
Segundo a entidade, isso ameaça diretamente o ecossistema musical no longo prazo.
“O mercado americano de instrumentos profissionais só é tão forte quanto o mercado estudantil que o alimenta.”
Fabricantes já relatam prejuízos e risco financeiro

O cenário vem provocando preocupação crescente entre fabricantes de amplificadores, pedais e instrumentos.
A EarthQuaker Devices revelou ter gasto mais de US$ 100 mil em tarifas desde abril de 2025. Segundo a CEO da empresa, Julie Robbins, o valor poderia ter sido investido em empregos, desenvolvimento e inovação.
“Esse é um dinheiro que poderia ter sido usado para gerar bons empregos e ampliar nossos recursos para inovação.”
Outras empresas do setor também já demonstraram preocupação com os impactos econômicos das tarifas.
A Electro-Harmonix questionou publicamente a viabilidade financeira de manter determinadas operações, enquanto a Morgan Amplification afirmou que os custos extras poderiam acrescentar cerca de US$ 1 mil ao preço final de alguns amplificadores.
NAMM afirma que produção interna não consegue suprir demanda
Outro ponto levantado durante a audiência envolve a própria capacidade de produção dos Estados Unidos.
Segundo a NAMM, os EUA representam aproximadamente US$ 9 bilhões de um mercado global estimado em US$ 19,5 bilhões. Ainda assim, a entidade afirma que a estrutura industrial americana não consegue atender sozinha toda a demanda existente.
Além disso, muitas marcas dependem da fabricação internacional para manter linhas acessíveis voltadas a estudantes e músicos intermediários.
Para a associação, o aumento nos custos pode enfraquecer não apenas fabricantes, mas também lojas, escolas de música e programas educacionais.
Mobilização política da indústria cresce em Washington
A pressão sobre o governo norte-americano vem aumentando nos bastidores da indústria musical.
Representantes da NAMM e executivos de diferentes empresas participaram recentemente de reuniões no Capitólio para discutir os impactos das tarifas sobre o setor.
A mobilização fez parte do tradicional NAMM Advocacy DC Fly-In, iniciativa que reúne fabricantes, lojistas e representantes da indústria musical em encontros com parlamentares norte-americanos para discutir políticas públicas ligadas ao mercado de instrumentos.
Segundo os organizadores, o objetivo é defender medidas que preservem o acesso à música, incentivem pequenos negócios e evitem danos permanentes ao setor.




