Em uma pequena paróquia na cidade costeira de Náuplia, na Grécia, uma combinação improvável começou a chamar atenção do mundo da música: um padre ortodoxo, uma guitarra de oito cordas sem trastes e hinos religiosos transformados em faixas de metal experimental.
Conhecido como Padre Dionysios Tabakis, o músico se tornou uma sensação viral após lançar Paradise Metal, álbum de estreia que une elementos da tradição bizantina grega com influências de drone metal, techno, rap e música eletrônica.
O projeto nasceu de maneira despretensiosa. Tabakis publicou suas experiências musicais em um canal no YouTube, até que o trabalho chamou a atenção do músico e fundador da gravadora grega Elhellell, Nikolas Rafael. A partir daí, o material ganhou uma edição limitada em fita cassete, inicialmente com apenas 150 unidades, que se esgotaram rapidamente.
Agora, devido à repercussão internacional, o álbum será relançado em vinil, enquanto o padre se prepara para suas primeiras apresentações fora da Grécia.
A guitarra sem trastes para explorar os microtons bizantinos
O instrumento central da criação de Tabakis é uma Harley Benton R-458 de oito cordas, que passou por uma transformação importante: o músico removeu os trastes para conseguir explorar com mais liberdade os microtons presentes nas escalas da música bizantina.
Segundo o padre, os trastes cumprem um papel fundamental no aprendizado do instrumento, mas podem limitar algumas possibilidades de expressão.
“Os trastes são necessários, como um andador que uma criança pequena usa para aprender a andar. Eles são uma etapa importante na aula de música, mas, depois de um certo ponto, podem se tornar limitantes para alguns músicos”, explicou.
Para ele, a ausência dos trastes permite uma conexão mais próxima com as características da música tradicional grega, que possui intervalos e nuances diferentes da afinação ocidental mais comum.
Da guitarra improvisada ao metal espiritual
A relação de Tabakis com a música começou ainda na infância. Nascido em uma família humilde em Pireu, na Grécia, ele teve como primeiro instrumento um violão de plástico comprado em uma festa de vila. Mais tarde, chegou a construir uma espécie de guitarra artesanal usando uma tábua, pregos e cordas.
Sem recursos para estudar em conservatórios, aprendeu música por meio dos ensinamentos gratuitos de padres que ensinavam música bizantina. Com o tempo, passou a adaptar essas melodias ao violão, buscando uma sonoridade próxima ao bouzouki, instrumento tradicional grego de cordas.
Sua coleção de instrumentos cresceu ao longo dos anos e inclui peças como qanun, baglamas grego, oud do Oriente Médio, cümbüş turco e erhu chinês.
A guitarra elétrica só chegou mais tarde, quando, incentivado pelo neto, comprou uma Harley Benton TE-20HH Standard. A partir dali, surgiu uma pergunta que mudaria sua trajetória:
“Como soariam os hinos e a música da Igreja se fossem executados em uma guitarra elétrica?”
“Paradise Metal” mistura tradição e experimentação
O resultado dessa busca é um trabalho difícil de classificar. Paradise Metal passeia entre cânticos religiosos, riffs pesados, música eletrônica e elementos de diferentes culturas.
Para Tabakis, a mistura faz sentido porque diferentes formas de expressão musical sempre estiveram conectadas.
“Eles simplesmente se complementam e coexistem”, afirmou o músico ao comentar a relação entre rap, techno e tradições antigas.
Mesmo com a crescente atenção internacional, o padre continua vivendo em Náuplia e dividindo sua rotina entre a comunidade religiosa, a família e os instrumentos musicais espalhados pela casa.
Agora, além dos compromissos como sacerdote, ele prepara sua guitarra de oito cordas para levar sua mistura de metal e música bizantina aos palcos internacionais.
Uma combinação que parecia improvável acabou criando uma ponte sonora entre séculos de tradição religiosa e o peso moderno das guitarras de metal.




