Como é trabalhar como músico nos Estados Unidos e na Inglaterra, os dois principais países para a indústria fonográfica? Na edição 103 da Guitarload (janeiro de 2020), dois músicos brasileiros – o guitarrista Matheus Canteri e o baixista Vinnie Colla -, um em cada país mencionado, contou um pouco mais sobre como é atuar na área dentro desses mercados.

Matheus Canteri se mudou para os Estados Unidos há um ano, após entrar para a banda The Royal Hounds e fazer turnês prévias pela Europa. Nos EUA, ele havia entrado para apenas para showscases, mas obteve autorização para estabelecer residência depois de apresentar material construído com o grupo.

Durante o bate-papo com a Guitarload, Canteri mencionou que o trabalho com música nos Estados Unidos flui de forma mais rápida. “As pessoas são muito profissionais e exigem agilidade, seja para aprender um repertório, fazer um show, chegar em um ensaio preparado… não dá para perder tempo, até por ter uma concorrência enorme. É comum, inclusive, fazer shows sem ensaio. Você recebe o repertório e caso tenha alguma música de outro tom, é avisado”, afirmou.

O guitarrista pontuou que essa prática, no Brasil, ocorre de outra forma. “Isso é bem diferente. Nas bandas que integrei no Brasil, era difícil… você tinha que fazer um ensaio para cada 3 músicas”, disse.

Nos EUA, a expectativa é que o músico contratado seja realmente profissional. “Só marcam ensaio quando tem algo que realmente precisa ser ensaiado. A maioria dos trabalhos que peguei para fazer de última hora aqui não teve ensaio. No máximo, sinalizam os tons que o vocalista vai cantar. Adorei essa agilidade toda, porque no Brasil, me frustrava quando eu precisava ensaiar muito – e ainda não dava certo no show”, afirmou.

Já no Reino Unido, Vinnie Colla, também entrevistado pela Guitarload, disse que sentiu algumas dificuldades para trabalhar com música. Porém, isso pode ter origem no fato de que ele conseguiu, desde sempre, viver dos “graves” no Brasil, com a banda Insônica.

“No Brasil, vivi de música a vida toda. A primeira vez na vida em que não vivi de música foi aqui, na Inglaterra (risos). No começo, é complicado… em Londres, tudo é mais caro. Eu também estava um pouco cansado da música, então, precisava de um tempo. Aqui, eu trabalhava como motorista em parte do dia e tinha tempo para a música. No Brasil, era mais fácil viver de música, pois minha banda recebia cachês altos. Aqui, consegui viver de música, só não é uma renda fixa, porque é necessário correr atrás um pouco mais”, disse.

Outro ponto citado pelo baixista é que o trabalho autoral é mais valorizado na Inglaterra. “Há bandas covers, como no Brasil, mas a maioria dos pubs tem cena autoral. Há muito espaço para tocar autorais e o público tem interesse. Rolam shows mais rápidos, com algum músico cantando e tocando violão ou piano, cada um apresentando 5 autorais, vendendo seu CD e o público curtindo. Também tem bandas, mas nesse formato, é mais raro. A cena autoral é muito aplaudida, as pessoas frequentam esses lugares”, afirmou.

Após passar por algumas bandas, Vinnie Colla entrou para o Inglorious, uma das grandes bandas de hard rock da atualidade. A situação mudou, já que o grupo é bem estabelecido e faz turnês bem longas, por toda a Europa. Dessa forma, o baixista está em boa posição para dar dicas para quem quer tentar viver de música no exterior.

“Sobrevivo em um meio difícil. Muitos músicos vêm de uma vida online, das redes sociais ou canais de YouTube. Tentei fugir disso, apesar de que, daqui a pouco, vou ter que criar meu canal e coisas assim, pois o mundo mudou. Fui persistente. Mesmo tocando na noite, busquei um diferencial. Usava baixo de 6 cordas, fazendo acordes, com mais efeitos. Era o meu som. Na Inglaterra, foi a persistência mesmo. Por melhor que você seja, você sempre vai ouvir ‘não’ e isso vai te deixar para baixo, vai se questionar e pensar em desistir. Em algum momento, você levou ‘não’ para ouvir ‘sim’ lá na frente. A dica é nunca desistir, porque você só precisa de um ‘sim’ e, talvez, esse ‘sim’ seja muito maior. Ser músico não é fácil em nenhum lugar do mundo, pois não dá para saber o dia de amanhã, mas todo músico deve ser persistente, além de bom no que faz – inclusive na teoria, pois, aqui na Europa, só te pegam para alguns trabalhos se você ler partitura”, disse.