Uma hora livre no estúdio foi suficiente para transformar uma sessão de gravação em um dos registros mais icônicos da guitarra de Duane Allman. Em 1969, o músico participou do álbum Boz Scaggs, do cantor homônimo, e acabou protagonizando uma longa improvisação em “Loan Me a Dime”, faixa que se estende por cerca de 12 minutos na versão lançada.
A história foi relembrada por Scaggs em entrevista ao programa Harmonica Party, apresentado por Mark Hummel. Segundo o cantor, os músicos estavam encerrando os trabalhos no Muscle Shoals Sound Studio, no Alabama, e já começavam a guardar os equipamentos quando alguém percebeu que ainda havia tempo para gravar mais uma música.
A escolha foi “Loan Me a Dime”, composição do bluesman Fenton Robinson que Scaggs conhecera em uma apresentação de Elvin Bishop e da cantora Jo Baker. Ele se lembrava da melodia e das mudanças de acordes, mas precisou telefonar para Baker, em São Francisco, para conseguir a letra.
A banda aceitou o desafio. O que aconteceu a seguir, porém, dependia da combinação entre os músicos e da liberdade para improvisar.
Um amplificador no banheiro
O espaço reduzido do estúdio tornou a gravação ainda mais incomum. Scaggs descreveu o local como uma construção do tamanho aproximado de uma garagem para dois carros. Para acomodar todos os músicos, a equipe improvisava posições em diferentes cômodos.
Os instrumentos de sopro ficaram perto de uma máquina de refrigerantes, enquanto Scaggs foi colocado em uma pequena sala. Allman acabou no banheiro, com seu amplificador ao lado.
“Duane Allman estava sentado na tampa do vaso sanitário, com os pés apoiados no assento, e seu pequeno amplificador estava bem ali”, contou Scaggs. O guitarrista tocava com fones de ouvido, espremido naquele espaço, e encontrou ali um som que o cantor descreveu como incrível, beneficiado também pela ambiência do ambiente.
A banda decidiu gravar enquanto ensaiava, para não perder uma eventual boa execução. Ao terminar a música, a seção rítmica continuou tocando, passando por diferentes variações de andamento e groove. Allman acompanhou a improvisação, que, segundo Scaggs, durou entre 15 e 17 minutos.
A primeira tomada já havia impressionado os músicos. Uma segunda gravação também foi realizada, mas Scaggs considerou a energia da primeira diferente. Ao explicar o que fez a diferença, foi direto: “Duane”.
Uma performance que atravessou gerações
Embora a sessão tenha surgido quase por acaso, “Loan Me a Dime” se tornou um dos registros mais destacados da fase anterior à consolidação da Allman Brothers Band. A faixa permite acompanhar Allman explorando o blues em uma construção extensa, com frases que se desenvolvem ao longo da improvisação, em vez de se limitar a um solo curto e previamente delimitado.
Na época, o guitarrista já frequentava os estúdios de Muscle Shoals e o FAME, nas proximidades. Suas gravações incluíam “Hey Jude”, com Wilson Pickett, performance que chamou a atenção de Eric Clapton antes de os dois músicos se conhecerem.
Allman havia voltado para Macon, na Geórgia, para se dedicar à Allman Brothers Band, mas o produtor Jann Wenner, fundador da revista Rolling Stone, conseguiu convencê-lo a retornar para participar das sessões de Scaggs.

O cantor também guardou boas lembranças da convivência com o guitarrista fora do estúdio. Depois das gravações, levou Allman de carro até Chattanooga, no Tennessee, para visitar um vendedor que possuía uma coleção de guitarras antigas, incluindo Dobros e instrumentos National de aço.
Scaggs descreveu Allman como um músico talentoso, focado e agradável de conviver. A lembrança da sessão de “Loan Me a Dime”, por sua vez, mostra como uma gravação planejada às pressas acabou registrando algo especial: um guitarrista com espaço para seguir a música até onde ela o levasse.






