David Gilmour pode ser responsável por alguns dos solos mais reconhecíveis da história do rock, mas até ele já sentiu aquele frio na barriga diante de um ídolo. O guitarrista do Pink Floyd revelou que ficou apreensivo ao ser convidado para interpretar uma música de Peter Green em um tributo organizado por Mick Fleetwood.
O convite aconteceu em 2020, quando Fleetwood reuniu uma série de músicos para homenagear o fundador do Fleetwood Mac. Entre as músicas escolhidas estava “Albatross”, instrumental lançado pelo grupo em 1968 e uma das composições que mais impressionaram Gilmour ao longo da carreira.
O detalhe curioso é que Gilmour não se sentiu simplesmente honrado com o convite. Segundo Fleetwood, ele inicialmente ficou preocupado com a possibilidade de não conseguir fazer justiça à maneira de tocar de Green.
“Não sei se consigo interpretar o trabalho de Peter”
Fleetwood contou à Rolling Stone que Gilmour tinha enorme reverência por Green, tanto como guitarrista quanto como compositor.
“Ele pensou: ‘Não sei se consigo interpretar o trabalho de Peter. É tão incrível’”, relatou o baterista.
Apesar da insegurança inicial, Gilmour acabou aceitando participar do show realizado no Palladium, em Londres, em 20 de fevereiro de 2020. Green morreria poucos meses depois, em julho daquele ano.
Para a apresentação, entretanto, Gilmour escolheu uma abordagem diferente. Em vez de assumir a guitarra elétrica, tocou pedal steel, instrumento que ajudou a criar uma interpretação própria para “Albatross”.
A música de Peter Green que marcou Gilmour
A admiração de Gilmour por Green não era exatamente uma novidade. Em entrevistas anteriores, o guitarrista do Pink Floyd já havia citado “Albatross” como um dos solos que gostaria de ter escrito.
A faixa foi lançada pelo Fleetwood Mac em 1968 e nasceu de referências bastante diferentes. Green revelou que a composição foi inspirada por “Sleep Walk”, de Santo & Johnny, e por “The Last Meal”, de John Mayall & the Bluesbreakers, durante a fase em que Eric Clapton integrava a banda.
O resultado foi uma composição instrumental construída sobre uma atmosfera mais contemplativa, distante do blues tradicional mais agressivo. Esse caráter melódico ajudou a transformar “Albatross” em uma das gravações mais conhecidas do Fleetwood Mac daquela época.
Até Gilmour teve seus próprios heróis
A história também ajuda a entender como Gilmour desenvolveu sua própria identidade na guitarra. Em uma entrevista de 1985 à Guitar Classics, ele citou uma longa lista de influências, incluindo Lead Belly, B.B. King, Eric Clapton, Roy Buchanan, Jeff Beck e Eddie Van Halen.
O guitarrista contou que, no início, tentou absorver elementos de diferentes músicos. Chegou a estudar violão de 12 cordas inspirado por Lead Belly e guitarra solo influenciado por Hank Marvin e Clapton.
Com o tempo, porém, Gilmour encontrou uma abordagem própria, marcada menos pela quantidade de notas e mais pelo fraseado, pela dinâmica e pela construção melódica.
E talvez seja justamente por isso que o episódio com Peter Green seja tão interessante. Mesmo um guitarrista que ajudou a definir a linguagem do rock também teve alguém diante de quem preferiu parar, respirar e pensar: será que consigo fazer isso direito?
Para Gilmour, a resposta acabou sendo sim. E “Albatross” ganhou mais uma interpretação especial no caminho.





