Sair de casa com milhares de reais em equipamento para tocar em troca de um cachê pequeno é uma rotina que boa parte dos músicos brasileiros conhece de perto. Em entrevista ao Guitarload Talks, o guitarrista Heber Nunes fala com franqueza sobre por que, no caso dele, a vida de sideman deixou de fazer sentido financeiramente e para a saúde.
Sideman é o termo dado ao músico contratado para acompanhar um artista ou uma banda, sem ser o nome principal do show. Em Campo Grande, onde mora, Heber passou a atender esse tipo de demanda nos fins de semana, tocando repertórios do meio gospel e sertanejo.
A conta que não fechava
Com o tempo, a matemática pesou mais que a vontade de tocar. O guitarrista percebeu que uma boa agenda de aulas rendia mais, com menos desgaste, do que muitos shows que aceitava. A saúde também entrou nessa conta, já que dormir em horários regulares passou a valer mais do que virar a madrugada na estrada.
O episódio o fez repensar a atuação aconteceu por volta das 04:30 da madrugada, ao fim de um show numa região praticamente abandonada. Guardando por volta de R$ 50 mil em equipamento para receber, no máximo, R$ 200, ele teve o estalo de que o risco não compensava o retorno.
“Isso aí não paga às vezes nenhum encordoamento que eu uso. Foi decisivo para eu decidir parar de tocar na noite.”
O cálculo, para ele, deixou de ser só sobre dinheiro. Aceitar qualquer proposta significava tocar repertório com o qual não se identificava, ao lado de artistas descompromissados, num ambiente que muitas vezes não tinha nada a ver com o trabalho que queria construir.
A partir daí, o guitarrista passou a filtrar melhor os convites. Ele lembra do alerta que ouviu de uma pessoa no intervalo de um show, dizendo que tocar com determinado artista poderia queimar seu nome. A ideia de que o músico acaba se associando à imagem de quem acompanha ficou marcada.
“Eu não posso tocar com qualquer pessoa. Aí foi que eu fui fazendo naturalmente essa peneira de escolher melhor com quais artistas eu vou tocar.”
O artista e o professor
Por trás dessas escolhas está também o dilema de equilibrar o artista, que precisa do palco para se expressar, e o professor. Foram esses dois lados que Heber teve de conciliar ao longo da carreira, e nem sempre a balança pendeu para onde ele gostaria.
Ele conta que, à medida que foi se profissionalizando na educação e no estúdio, chegou a um ponto em que já não se reconhecia como artista. A dedicação às aulas trazia estabilidade, mas quanto mais o professor ganhava espaço, mais o músico que queria criar e se apresentar ia ficando para trás.
Ainda assim, o guitarrista deixa claro que essa vontade não desapareceu. Ela ficou, nas palavras dele, em standby. Voltar a tocar e a subir ao palco segue como um projeto, agora com a diferença de poder escolher melhor os contextos em vez de aceitar qualquer agenda.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:





