A Fender fez seu maior recuo público desde o início da controversa campanha jurídica envolvendo guitarras inspiradas na Stratocaster. Em entrevista à Bloomberg, o CEO Edward “Bud” Cole admitiu que a fabricante poderia ter conduzido melhor o envio das cartas de cessação e desistência e afirmou que a empresa mudou o foco de suas ações legais.
A declaração marca uma inflexão importante em uma disputa que, desde maio, colocou a Fender em rota de colisão com fabricantes boutique, grandes marcas e parte da comunidade de guitarristas. O estopim foi uma decisão judicial obtida em Düsseldorf, na Alemanha, que fortaleceu a proteção do desenho da Stratocaster na União Europeia.
“Isso saiu do nosso controle”
Pela primeira vez, Bud Cole reconheceu que a repercussão da campanha foi além daquilo que a Fender imaginava.
Segundo o executivo, a intenção era iniciar conversas com empresas que produziam cópias muito próximas da Stratocaster. No entanto, a estratégia acabou gerando uma reação negativa em toda a indústria.
“Houve muita reflexão sobre isso. Para mim, está claro que isso saiu do nosso controle. O processo legal saiu do nosso controle, e poderíamos ter feito isso melhor.”
Cole também afirmou que, olhando em retrospectiva, “provavelmente havia uma maneira melhor” de abordar os fabricantes antes de recorrer às notificações extrajudiciais.
A fala contrasta com a postura inicial da Fender, que defendia as cartas como uma forma de proteger o legado de Leo Fender e combater apenas instrumentos considerados “cópias quase idênticas” da Stratocaster.
A prioridade deixa de ser os luthiers
A principal mudança anunciada pelo CEO está no alvo da campanha. De acordo com Cole, a Fender deixou de concentrar seus esforços em fabricantes artesanais e passou a direcionar suas ações “muito, muito exclusivamente” para grandes empresas do setor.
Apesar da declaração, a Bloomberg observa que algumas fabricantes boutique, como a LsL Instruments, ainda não receberam uma confirmação formal da Fender informando que estão fora da campanha.
A indefinição mantém parte do mercado em alerta, especialmente entre pequenas oficinas que produzem modelos inspirados em guitarras clássicas.
Uma disputa que ainda está longe do fim
O recuo no discurso não significa o encerramento da ofensiva jurídica. Segundo Bud Cole, 32 fabricantes já procuraram a Fender para negociar acordos relacionados ao formato da Stratocaster, e 18 deles assinaram contratos.
Ao longo dos últimos meses, cerca de 60 empresas receberam notificações da Fender. Entre elas estão nomes como PRS, Yamaha, Schecter, Ernie Ball Music Man e a varejista alemã Thomann, proprietária da Harley Benton, que respondeu à campanha abrindo uma disputa judicial própria contra a fabricante americana.
Cole também esclareceu que a decisão de iniciar a campanha partiu da própria Fender, e não de sua controladora, a Servco, acrescentando que o processo jurídico já estava em andamento antes de sua chegada ao cargo de CEO, em fevereiro deste ano.
Embora a Fender mantenha sua defesa da propriedade intelectual da Stratocaster, a admissão pública de que “isso saiu do nosso controle” representa o primeiro reconhecimento oficial de que a estratégia jurídica teve consequências que extrapolaram o objetivo inicial da empresa.
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