A dupla canadense Angine de Poitrine se tornou um dos nomes mais comentados da cena experimental recente. O motivo vai além do visual excêntrico ou da estética performática.
O projeto ganhou tração após uma apresentação na KEXP ultrapassar milhões de visualizações, impulsionando o interesse global. O impacto foi tão grande que músicos como Rick Beato e Cory Wong passaram a comentar sobre o som da dupla.
A proposta, no entanto, não se apoia apenas no fator viral. O diferencial está na abordagem musical e, principalmente, no instrumento utilizado.
A guitarra microtonal que redefine o papel do instrumento
No centro da identidade sonora da dupla está uma guitarra microtonal de braço duplo construída artesanalmente. O instrumento combina funções de guitarra e baixo em uma única estrutura.
A modificação mais relevante está na adição de trastes extras esculpidos manualmente. Isso permite acessar intervalos entre as notas da escala tradicional ocidental.
Segundo o baterista Klek, a ideia surgiu de forma experimental. Ao adicionar novos trastes com ferramentas simples, o resultado inicial causou estranhamento imediato.
Esse estranhamento, porém, se tornou o principal elemento criativo do projeto.
O que é microtonalidade e por que ela soa tão diferente
Na prática, a microtonalidade divide a oitava em mais do que os 12 semitons convencionais. Isso abre espaço para intervalos menores, como quartos de tom.
Esses intervalos criam tensões que não existem na harmonia tradicional. Para o ouvido acostumado ao sistema temperado, o resultado pode soar instável ou até “desafinado”.
No caso da Angine de Poitrine, essa tensão não é usada como efeito pontual. Ela se torna a base da composição e do fraseado.
O guitarrista Khn utiliza esses microintervalos para expandir ideias cromáticas e prolongar zonas de tensão. A abordagem lembra conceitos explorados por Frank Zappa, mas com uma aplicação ainda mais radical.
Impacto direto no fraseado e na linguagem da guitarra
Para guitarristas, o ponto mais relevante está na forma como a microtonalidade altera a lógica do instrumento.
Em vez de trabalhar apenas com resolução tradicional, o fraseado passa a explorar regiões intermediárias entre as notas. Isso cria linhas mais densas e imprevisíveis.
Khn afirma que essa abordagem permite dobrar possibilidades cromáticas e ampliar a sensação de tensão harmônica. Ainda assim, ele defende que a música não é totalmente abstrata.
Segundo o músico, algumas estruturas podem ser comparadas a trabalhos de John Scofield e Miles Davis, especialmente no uso de espaço e tensão. A diferença está na forma como esses elementos são distribuídos dentro de um sistema expandido.
Até onde a microtonalidade pode chegar no mainstream
Com o lançamento do álbum Vol. II, previsto para abril, a Angine de Poitrine pretende ampliar o alcance da proposta.
O objetivo não é tratar a microtonalidade como curiosidade ou nicho, mas como um sistema musical completo. A ideia é integrar esses intervalos ao vocabulário comum, sem depender do fator novidade.
Se essa abordagem vai se consolidar no mainstream ainda é incerto. Mas uma coisa já está clara: o experimento deixou de ser apenas estranho.
Agora, ele começa a ser levado a sério — inclusive por guitarristas.
Repercussão e reação da comunidade musical
O impacto da proposta gerou reações online. Rick Beato afirmou que poucos artistas recentes geraram tanto engajamento em seu público. Segundo ele, a quantidade de mensagens recebidas sobre a dupla supera padrões comuns, indicando curiosidade generalizada sobre o som apresentado.
Já Cory Wong destacou o nível técnico e a originalidade da abordagem, mesmo dentro de um cenário já acostumado a fusões experimentais.
A reação de Wong chama atenção justamente pelo contraste com sua abordagem musical. Conhecido por um fraseado preciso e totalmente ancorado no sistema tonal tradicional, Wong representa o oposto da proposta microtonal apresentada pela dupla canadense.
O interesse do guitarrista indica que, mesmo fora do padrão, a linguagem explorada pela Angine de Poitrine desperta curiosidade dentro do circuito profissional.





