Para Eric Gales, a escola de música mais rigorosa que ele frequentou não tinha apostila, nem professor de instrumento, tampouco horário fixo. Era a igreja. Em conversa com o produtor Rick Beato, o guitarrista contou como os cultos que duravam horas e a disciplina severa o prepararam para os palcos que enfrentaria depois.
Influenciado pela família, Gales cresceu numa igreja pentecostal que ele descreve como cheia do Espírito Santo, onde os fiéis louvavam por horas a fio, várias vezes por semana, às vezes em mais de um culto no mesmo dia.
Apesar de sua aptidão e amor pela guitarra, quando criança, sua reação mediante ao compromisso excessivo era a de qualquer criança que estivesse no lugar dele: “igreja de novo não”.
Mas foi ali que ele aprendeu disciplina e se desenvolveu como músico.
Constrangimento como método
O ponto que ele faz questão de destacar na conversa é a régua à qual estava submetido. Os regentes de coral não perdoavam um descuido. Bastava perder a atenção por um instante para a coisa desandar, e a correção vinha na frente de todo mundo.
“Havia uma quantidade absurda de disciplina. Aqueles regentes de coral, se você perdesse alguma coisa ou não estivesse prestando atenção, você ficava muito envergonhado. A igreja inteira ficava como um disco riscado, os holofotes se voltavam para você, mandavam você se levantar e te deixavam constrangido.”
Segundo Gales, o constrangimento era o jeito de obrigar todo mundo a se concentrar de verdade. Ele reconhece que a pressão era exagerada, mas não trocaria aquilo por nada. O que parecia castigo virou, com o tempo, a base do músico que ele é.
Da igreja aos palcos
Para ele, além da disciplina, quem é criado num ambiente religioso desses sai pronto para tocar qualquer estilo.
“Se você for criado num ambiente religioso, acho que esse é um dos estilos de música mais profundos que vai preparar você para qualquer estilo que exista no mundo. Se você tiver uma visão abrangente sobre isso, estará bem preparado para qualquer coisa que escolher representar.”
Tinha também o lado prático, era performance o tempo todo. Às vezes um baterista e um guitarrista seguravam o culto inteiro sozinhos, sem teclado, sem mais ninguém. Tocar assim, dia após dia, semana após semana, é um treino que nenhuma aula formal dá.
Hoje, na estrada e no estúdio, Gales ainda pensa naqueles dias. O que era obrigação aos quatro, cinco anos de idade virou gratidão. A igreja não foi só onde ele pegou na guitarra pela primeira vez, foi onde ele aprendeu a levar a música a sério.
Assista abaixo à conversa de Eric Gales com Rick Beato:





