Quando um guitarrista ensina, ele descreve a intenção. Quando ele toca, a câmera mostra a execução. Nem sempre as duas coincidem. É desse detalhe que parte Marco De Ros em um novo vídeo, no qual analisa os ensinamentos “opostos” de Kiko Loureiro e Paul Gilbert sobre palhetada e chega a uma conclusão que não estava na fala de nenhum dos dois.
A contradição aparece em aulas dos próprios guitarristas. Em suas explicações, Kiko Loureiro defende a palhetada paralela às cordas, em busca de um som mais limpo. Paul Gilbert ensina outro caminho, com a palheta inclinada, atrás de um timbre mais arranhado e encorpado. Dois grandes nomes da guitarra mundial, apontando direções que, sem uma análise criteriosa, parecem se anular.
Os dois mestres realmente discordam sobre a palhetada?
A leitura de De Ros é engenhosa. Para ele, os dois nem estão respondendo à mesma pergunta. Um fala em deixar o som mais limpo, o outro em torná-lo mais expressivo. Os dois falam de timbre.
Para De Ros, a análise ganha outro peso. Quando o guitarrista explica, ele descreve a intenção. Quando toca, a câmera registra o que a mão realmente faz. E, em seu raciocínio, é na câmera que se deve confiar, porque a fala vem da cabeça e o movimento vem do corpo.
“A intenção pertence ao músico, a execução pertence à física.”
A velocidade é o que traz a física para o primeiro plano. Na comparação em câmera lenta, Gilbert usa bem mais ângulo de palheta. Kiko varia conforme a frase que está tocando. Cada um resolve o mesmo problema de um jeito ligeiramente diferente, e é isso que leva à pergunta central do vídeo.
Existe uma técnica perfeita?
A resposta de De Ros é direta. Não há técnica perfeita porque não há um objetivo único. Se a meta é timbre, o caminho é um. Se a meta é velocidade, talvez seja outro. Muda o objetivo, muda a técnica.
Isso ajuda a explicar por que quase todo mundo acaba inclinando a palheta ao acelerar. Passa de certo ponto e deixa de ser opinião para virar física. O atrito aumenta, a resistência cresce, e a mão procura sozinha outro caminho.
O próprio guitarrista fecha o raciocínio com uma provocação sobre a técnica dele mesmo. Se daqui a cinco anos filmarem a mão dele em câmera lenta fazendo algo diferente do que ele diz hoje, o espectador deve acreditar na câmera, não nele.
“Eu não quero estar certo, eu quero entender como a guitarra realmente funciona.”
O vídeo termina devolvendo a questão para quem assiste. O gargalo técnico de cada um pode ser outro: coordenação, relaxamento, estamina ou justamente o ângulo da palheta. E o único jeito de descobrir qual é o seu, na visão de De Ros, é colocar a mão sob pressão.





