Durante décadas, guitarristas e colecionadores atribuíram a queda de qualidade de muitas guitarras produzidas nas décadas de 1960 e 1970 às mudanças de comando nas principais fabricantes americanas. A compra da Fender pela CBS, em 1965, e da Gibson pela Norlin, em 1969, costumam aparecer como os principais marcos desse período.
Mas um respeitado músico de estúdio resolveu desafiar essa narrativa.
Para Brad Allen Williams, guitarrista que já trabalhou com Brittany Howard, Nate Smith e Bilal, o verdadeiro gatilho para a transformação da indústria aconteceu antes das aquisições corporativas e atende por um nome conhecido por qualquer fã de música: The Beatles.
A apresentação que mudou toda a indústria
Segundo Williams, o momento decisivo ocorreu em 9 de fevereiro de 1964, quando os Beatles fizeram sua histórica estreia no programa The Ed Sullivan Show, nos Estados Unidos.
A apresentação ajudou a desencadear uma verdadeira explosão no interesse por guitarras e outros instrumentos musicais, criando uma demanda que as fabricantes simplesmente não estavam preparadas para atender.
“Não quero provocar discussões, mas vou contestar uma das crenças mais difundidas sobre guitarras vintage”, escreveu o músico em suas redes sociais.
Na visão dele, as aquisições da Fender, Gibson e Gretsch não foram a causa da queda de qualidade dos instrumentos, mas uma consequência de um mercado que já enfrentava enorme pressão para produzir cada vez mais.
A demanda explodiu da noite para o dia
Williams lembra que o impacto cultural da Beatlemania foi imediato.
Milhares de jovens decidiram aprender guitarra depois de assistir à apresentação de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr na televisão americana.
Para acompanhar essa procura sem precedentes, fabricantes precisaram ampliar rapidamente suas linhas de produção, contratar novos funcionários e acelerar processos de fabricação.
Segundo o guitarrista, era inevitável que parte do controle de qualidade fosse comprometida.
“Não importa quem seja o dono da empresa. Se você precisa aumentar a produção nessa velocidade, alguma coisa vai acabar cedendo.”
Fender e Gibson já enfrentavam dificuldades
Como exemplo, Williams cita os enormes pedidos acumulados pela Fender antes mesmo da venda para a CBS.
Segundo ele, a empresa possuía milhões de dólares em encomendas atrasadas e enfrentava dificuldades para atender à procura por modelos como a Mustang.
Na Gibson, a situação também era semelhante. A produção anual saltou de poucos milhares de instrumentos, no fim da década de 1940, para mais de 100 mil guitarras durante os anos 1960.
Para Williams, esse crescimento acelerado explica por que muitos colecionadores observam mudanças de construção já em 1965 e 1966, antes mesmo da chegada da Norlin.
Uma teoria que reacende um antigo debate
A opinião de Brad Allen Williams não altera o consenso histórico de que as administrações da CBS, Norlin e Baldwin implementaram mudanças importantes nos processos de fabricação de Fender, Gibson e Gretsch.
No entanto, sua análise acrescenta um novo elemento ao debate: talvez o problema não tenha começado com os novos proprietários, mas com uma demanda gigantesca criada pelo fenômeno cultural dos Beatles.
Mais de seis décadas depois da histórica apresentação no The Ed Sullivan Show, a Beatlemania continua sendo apontada como um dos maiores catalisadores da história da guitarra. Agora, segundo essa nova interpretação, ela pode ter influenciado não apenas o número de músicos que passaram a tocar, mas também a forma como as guitarras passaram a ser fabricadas.




