A guitarra Les Paul é uma das mais icônicas da história. Criado pela Gibson em parceria com o músico Les Paul, o modelo promoveu uma verdadeira revolução no campo da música, seja por seu timbre típico ou pelo design que transmite a imagem de luxo.

Embora a história da guitarra Les Paul seja marcada por altos e baixos em termos comerciais, chegando a deixar de ser produzida entre os anos de 1961 e 1968, trata-se de um dos instrumentos de maior sucesso, sendo usado por músicos do porte de Jimmy Page, Slash, Gary Moore, Joe Perry, Ace Frehley, Pete Townshend, Eric Clapton, Bob Marley, Peter Green, Paul McCartney, Zakk Wylde e muitos outros.

Confira, a seguir, 10 curiosidades sobre a guitarra Les Paul que talvez você não saiba:

1) Reação à concorrência

Entre o fim da década de 1940 e início dos anos 1950, a Fender estava dominando o mercado. Muito disso veio após o lançamento das guitarras Esquire e Broadcaster, as antecessoras da Telecaster.

O motivo para o sucesso era o fato de serem duas guitarras de corpo sólido, diferentes daquelas que hoje conhecemos como semiacústicas. A Gibson precisou “apanhar” da Fender por alguns anos até investir em instrumentos “maciços”.

2) Guitarra Les Paul? No começo, piada

A Gibson demorou quase uma década até aceitar a proposta inicial, feita por Les Paul (na foto), para desenvolver uma guitarra de corpo sólido. Ele, que era visto como um notável inovador e experimentador do mundo dos instrumentos, já havia oferecido uma parceria em 1941.

O problema é que a Gibson deu risada de Les Paul e fez piada com seu projeto. “Eles riram de mim e me chamaram de ‘o garoto que usa vassoura com captadores’. Anos depois, me mudei para a Califórnia e Leo Fender viu, todo mundo viu a guitarra que eu queria desenvolver. Leo Fender quis fazer algo parecido e quando a Gibson soube, disseram: ‘encontrem o garoto da vassoura com captadores’. Quando me acharam, eu disse: ‘bem, vocês estão um pouco atrasados, mas vamos lá'”, contou Les Paul, em entrevista à Guitar Magazine.

3) Fender Les Paul? Epiphone Les Paul de início?

Conforme conta o próprio Les Paul, o modelo poderia ter sido da Fender se uma parceria tivesse sido pensada. Leo Fender acabou trabalhando em um modelo próprio de guitarra com corpo sólido, o que inviabilizou um lançamento conjunto.

Porém, entre 1939 e 1941, Les Paul começou a trabalhar no protótipo da guitarra dentro de outra fabricante: a Epiphone, que, na época, não havia sido comprada pela Gibson.

“Eu construí o protótipo na Epiphone. Conhecia o pessoal lá e eles me deixavam usar a fábrica aos domingos, só o segurança ficava por lá. Trabalhei nela por 2 anos, aos domingos. O pessoal da Epiphone viu e perguntou: ‘que p***a é essa?’. Eu respondi que era o ‘tronco’ (‘log’), uma guitarra de corpo sólido. Eles perguntavam o motivo e eu até explicava, mas eu estava mirando na Gibson, não na Epiphone. Eu sabia que a Epiphone iria cair por terra. A Gibson era a maior, era onde eu queria estar”, revelou Les Paul.

4) Log – o ‘tronco’

Retratado acima, o protótipo da guitarra Les Paul se chamava, justamente, The Log (ou “O Tronco” ou “A Lenha”, em traduções possíveis para o português). A ideia original do instrumento, segundo o músico que o desenvolveu, era bem próxima ao que o próprio nome dizia.

“Eu estava tentando fazer uma guitarra que sustentasse e reproduzisse o som da corda, sem adicionar nada. Sem distorção, sem mudança na resposta do que a corda estava fazendo. Queria apenas a corda. Sem vibração no topo, sem aprimoramento adicional, vantagens ou desvantagens. Queria o barulho da corda e só. Foi a minha ideia já no início dos anos 1930”, contou o músico.

5) A primeira guitarra Les Paul

O lançamento da primeira guitarra Les Paul pela Gibson ocorreu em 1952, um ano após começar a ser trabalhado pela firma. O modelo inicial da Les Paul Goldtop foi desenvolvido pelo presidente da empresa, Ted McCarty; o gerente de fabricação, John Huis; e o músico que batizaria o instrumento, Les Paul – ele era como se fosse o endorsee, avalizando tudo aquilo e emprestando a reputação que construiu, nos palcos, ao longo das décadas.

A primeira guitarra Les Paul tinha um par de captadores P-90, corpo e braço feitos em mogno hondurenho, tampo arqueado em maple, escala em jacarandá brasileiro e pintura dourada. Um detalhe acabou sendo modificado a partir de 1954: a ponte ao estilo trapézio, que, num futuro próximo, daria lugar à icônica ponte tune-o-matic.

Os anos iniciais da guitarra Les Paul representaram experimentos. Foi em 1953, por exemplo, que nasceu a versão Custom, com acabamento na cor preta e hardware dourado. Já em 1954 e 1955, surgiram as edições Junior, TV e Special, focadas em públicos diferentes, especialmente os iniciantes.

6) As contribuições de Les Paul

Há divergências sobre a contribuição de Les Paul na guitarra. O músico diz que interferiu em todos os detalhes. Já o pessoal da Gibson alega ter trabalhado em tudo praticamente sozinhos.

Ao que tudo indica, Les Paul teve contribuições mais visuais para a guitarra. Ele sugeriu, por exemplo, que o primeiro modelo fosse vendido em acabamento dourado, não só por questões visuais, mas para reforçar a qualidade – a Gibson buscava se diferenciar da Fender e a saída era apresentar modelos “top de linha”.

Porém, o conceito era do guitarrista, então, dá para dizer que o instrumento não nasceria sem ele, mesmo com o desenvolvimento feito por outros profissionais.

7) Guitarra Les Paul Sunburst – um fiasco inicial

A guitarra Les Paul, no geral, fez sucesso de cara, mas nem todos os modelos agradaram o público naqueles tempos. As edições Standard, com pintura Sunburst, de 1958 a 1960, curiosamente, não fizeram sucesso e acabaram sendo um fiasco de vendas.

A Standard não tinha tantas mudanças com relação à anterior Goldtop, de 1957. A alteração principal foi o acabamento Sunburst, mas os músicos consideraram essa edição muito “pesada” e “antiquada”. Em termos de preço, era mais cara que a Goldtop, porém, mais barata que a Custom. Vale lembrar que, na época, a guitarra Les Paul era orientada ao público do jazz, mais velho e com maior poder aquisitivo, e não aos jovens.

Quis o destino que a guitarra Les Paul Standard Sunburst fosse redescoberta na metade da década de 1960. Hoje, é um dos modelos mais clássicos do instrumento em toda a história, sendo objeto de desejo pelo mundo afora.

O “redescobrimento” começou com Keith Richards, dos Rolling Stones, em 1964. Ele começou a usar uma Les Paul Standard Sunburst 1959 e atraiu interesse de outros artistas. Com o tempo, ainda na década de 1960, guitarristas do porte de Eric Clapton, Peter Green, Jeff Beck, Paul Kossoff e Jimmy Page adotaram o modelo.

8) Les Paul SG

Em meio à crise da guitarra Les Paul, a Gibson desenvolveu, em 1961, uma variação chamada Les Paul SG (Solid Guitar). O modelo traz alterações substanciais no design, na ponte, nos trastes e até na captação.

Em 1962, a SG se tornou um modelo próprio, não mais ligado à guitarra Les Paul. O motivo? O guitarrista Les Paul não gostou nem do instrumento, nem do fato de a Gibson ter lançado o produto com seu nome sem a devida aprovação.

9) Turbulência na década de 1970

Em 1969, a empresa-mãe da Gibson, Chicago Musical Instruments (CMI), foi comprada pelo conglomerado ECL. A transição para o controle total da ECL durou 5 anos – em 1978, a marca se tornou subsidiária da Norlin Musical Instruments.

O período, chamado ‘Norlin Era’, durou até 1985, quando a Gibson mudou novamente de dono. Essa foi a época de maior turbulência na empresa, pois muitos experimentos passaram a ser feitos, nem sempre agradando os consumidores, especialmente porque havia grande foco em abaixar o padrão de qualidade para o reduzir o preço.

A guitarra Les Paul passou por diversas alterações nesse período, sendo que a principal é a fabricação em três peças de maple ao invés de apenas uma de mogno. Com a alteração na madeira, a sonoridade clássica foi para o espaço.

Um modelo totalmente alterado da guitarra Les Paul chegou a ser lançado pela Gibson nessa época: a Les Paul Recording (foto acima), que não emplacou por ser complexa demais para se operar a parte eletrônica.

Curiosamente, o modelo Recording se tornou o preferido de Les Paul. Porém, a versão que ele usava era diferente: trazia corpo em mogno e diversas alterações na parte eletrônica, para facilitar o uso e ficar do gosto do músico, que sempre foi notável por curtir experimentos em seu instrumento.

A situação da Gibson só voltou aos trilhos em 1986, com a já citada mudança de propriedade. A partir daí, acabou a farra do maple: a guitarra Les Paul voltou a ser fabricada em mogno e a empresa passou a focar no legado já construído ao invés de buscar tantas inovações.

10) Os modelos de guitarra Les Paul

Veja, abaixo, uma linha do tempo com os principais modelos de guitarra Les Paul feitos pela Gibson:

Goldtop (1952–1958, 1968–presente)

Custom (1954–1960, 1968–presente)

Standard (1958–1960, 1976–presente)

Junior (1954–1960)

TV (1955–1960)

Special (1955–1960)

Les Paul SG (1961–1963, quando se tornou apenas SG)

The Paul (1978–1982)

Deluxe (1968–1985)

Studio (1983–presente)

Memphis ES-Les Paul (2014–2016)