É difícil imaginar Eddie Van Halen sem associá-lo imediatamente ao tapping com as duas mãos e às guitarras de estilo Stratocaster. Mas um novo relato de um velho amigo do guitarrista sugere uma ironia curiosa: segundo Terry Kilgore, Eddie inicialmente detestava justamente essas duas coisas.
A revelação foi feita durante uma participação de Kilgore no podcast Booked on Rock, em que o músico relembrou os anos em que dividia a cena de Pasadena e Altadena, na Califórnia, com o jovem Van Halen, muito antes do álbum de estreia da banda, em 1978.
Kilgore tocou em grupos locais como Reddi Kilowatt e também integrou uma formação inicial do projeto de David Lee Roth, convivendo de perto com as ideias musicais que mais tarde ajudariam a moldar um dos guitarristas mais influentes da história do rock.
O tapping chegou por Harvey Mandel
Segundo Kilgore, a técnica de tapping não surgiu diretamente com Eddie Van Halen.
Ele conta que aprendeu os fundamentos do recurso com o guitarrista Harvey Mandel, um dos pioneiros na exploração do tapping ainda no início dos anos 1970.
“Ele tinha acabado de desenvolver essa técnica com a segunda mão. Fazia acordes e tinha uma abordagem muito livre”, recordou.
Na época, porém, Kilgore enxergava aquilo apenas como um efeito ocasional.
“Achei legal, mas pensei que era só um truque para usar de vez em quando.”
Foi Eddie quem percebeu o potencial real da técnica.
“Ele detestava duas coisas”
A parte mais surpreendente da entrevista veio quando Kilgore falou sobre as preferências de Van Halen naquela época.
“Ele detestava duas coisas: não gostava de fazer aquilo e não gostava de tocar Stratocaster. Mas acabou adotando as duas com muita intensidade.”
Para Kilgore, foi justamente essa capacidade de transformar uma ideia simples em algo completamente novo que diferenciou Eddie de todos os outros guitarristas da cena.
O tapping deixou de ser um recurso curioso e passou a se tornar uma linguagem própria, redefinindo a forma como gerações inteiras passaram a encarar a guitarra elétrica.

A Stratocaster também precisou ser reinventada
A relação complicada de Eddie com as Stratocasters não é apenas uma lembrança de Kilgore. O próprio guitarrista falou sobre isso em uma entrevista à Guitar Player, publicada em 1978.
Segundo Van Halen, ele comprou uma Stratocaster de 1958, mas rapidamente percebeu que os captadores single-coil não entregavam o peso que procurava para sua banda.
“Eu queria um som de Gibson, mas com a vibração de uma Stratocaster”, explicou na ocasião.
Foi dessa insatisfação que nasceu uma das experiências mais famosas da história da guitarra: instalar um humbucker em uma Strat, modificar o instrumento e, posteriormente, desenvolver aquela que ficaria conhecida como a Frankenstrat.
Mais do que buscar um timbre específico, Eddie dizia querer algo que fosse uma extensão de sua personalidade.
“Eu odiava guitarras prontas de loja. Elas não faziam o que eu queria que elas fizessem.”
Um amigo que evitou virar imitador
Kilgore também revelou uma curiosidade sobre sua própria trajetória.
Quando Eddie começou a adotar guitarras com tremolo e explorar essa nova linguagem, ele fez justamente o movimento contrário: deixou a Stratocaster de lado e voltou a tocar Les Paul.
O motivo era simples.
“Eu era amigo dele. Não queria ser identificado como um mero puxa-saco. Queria ter minha própria identidade.”
A lembrança ajuda a ilustrar como as ideias de Eddie Van Halen já circulavam entre músicos locais muito antes de ele se tornar um fenômeno mundial.
E talvez essa seja a maior ironia da história: duas das características que definiriam sua carreira nasceram justamente de elementos que, segundo um amigo de longa data, ele jurava não gostar.
Abaixo, você confere a entrevista completa:



